O corpo e seus sinais

Podemos considerar o corpo humano como a mais engenhosa obra de arquitetura de que se tem conhecimento.

Hoje já sabemos que evoluímos enquanto espécie e nos diferenciamos muito dos animais ( apesar de ainda possuirmos nossa porção instintiva ).

E todo esse progresso e salto qualitativo pode ser atribuído ao desenvolvimento da Consciência no homem.

É exatamente isto o que nos distancia e diferencia dos animais.

Analisando um pouco mais, percebemos que, ao evoluir em consciência, o ser humano foi se afastando de alguns atributos que regem a vida animal.

A consciência, como elevado fator de humanidade, cobrou seu preço nos obrigando a nos civilizarmos.

E para conseguirmos viver em sociedade, foi necessária uma sublimação de nossa porção mais instintiva , ou seja, domesticamos o animal que existe em nós.

É claro que isso nos trouxe inúmeras vantagens a nível social (coletivo).

Porém, a nível individual, subjetivo, saímos perdendo bastante também.

Pois o primeiro contato que perdemos foi exatamente aquele “faro” instintivo que todo animal tem .

Esse recurso está visceralmente ligado ao contato com os sinais corporais.

Vivemos tão para fora de nós mesmos, tão ocupados, que muitas vezes nem percebemos os múltiplos avisos que nosso corpo nos dá a respeito de nossa saúde e disposição física.

Deixamos de respeitar esses sinais e então adoecemos e sofremos mais freqüentemente.

Os nossos instintos estão aí para nos guiar de maneira segura quando se trata do corpo.

Mas chegamos ao ponto, em nossa sociedade, em que pensamos que um exame ou mesmo um médico deva conhecer mais de mim do que eu mesmo .

E , com certeza, enquanto entregarmos o conhecimento sobre nosso próprio corpo nas mãos de qualquer outro, isso significará o quanto estamos distantes daquele contato íntimo e insubstituível com nossas próprias entranhas, com nossa própria pele, com nossos ritmos e ciclos, enfim, com nossa corporalidade.

O caminho de volta seria interessante.

Acredito mesmo que ao nos reconectarmos com nossos próprios instintos obteremos ali um vasto repertório de informações que podem nos guiar (como um cão-guia farejador) ao melhor caminho para nossa própria existência.

Nosso problema atual é que nos civilizamos por demais.

Perdemos este contato interior.

Mas podemos nos exercitar para recuperá-lo, e incluí-lo em nossas vidas não significa romper com as convenções sociais.

Talvez, simplesmente possamos nos respeitar mais enquanto corpo, assim como valorizamos tanto nossas mentes.

O caminho, eu suspeito, deve começar por uma reorganização das atividades e prioridades em nossas vidas.

Tenho visto pessoas se sentindo muito importantes porque suas agendas estão cheias de compromissos, e se sentem quase orgulhosas em dizer que não têm tempo para nada... Acho que devemos reavaliar este estilo de vida, tão unilateral.

Nosso corpo possui uma inteligência (diferente da mental) , e é ouvindo com atenção seus conselhos que podemos equilibrar nossa vida em sociedade com outros aspectos pessoais e íntimos importantes .

Potanto, quando o corpo começa a doer, reclamar ou adoecer, pare antes que as coisas piorem.

Aquiete-se e aproxime-se de você mesmo perguntando: Para onde estou indo? O que estou fazendo comigo e com a minha vida ? O que não vai bem ? O que eu realmente gostaria de estar fazendo agora ? Perguntas tão simples, mas que merecem sua atenção profunda.

Observe os animais.

Eles se preservam e se respeitam. Comem quando estão com fome (não quando o relógio manda), dormem quando estão fatigados , fogem do perigo e evitam o stress, procuram locais tranqüilos para estar, etc.

O contato mais íntimo com os sinais corporais pode antecipar e até prevenir que você adoeça.

Mas é preciso saber ouvir as mensagens.

Desenvolver a escuta mágica que ativará em você o faro do animal adormecido, revelando respostas e apontando saídas que só poderão ser encontradas quando os instintos se relacionarem de novo com a consciência adquirida pelo homem.

Fonte : texto escrito pela Psicóloga Ana Lúcia Bernardi

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